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22 de maio de 2011

Há coisas mais difíceis de digerir do que outras...
E uma das que estão no topo da lista é sem dúvida a pressão dos pares.
Para pessoas como eu, que dão muita importância à família, é difícil enfrentar o peso dos olhares e das constatações implícitas nos olhares daqueles que amo...
A minha vida é só minha e quem traça o meu caminho sou eu, disso não há dúvidas!
Mas pelo menos cá dentro custa-me saber que não segui o caminho suposto, que não joguei (não estou a jogar) pelas regras... Às vezes acho que seria muito mais fácil baixar os braços e deixar-me levar pelo caminho que 'apazigua'  e deixa feliz a maioria... Só que eu não sou assim...
Não o fiz de propósito. Também eu não tinha traçado este plano de vida para mim mesma... Saiu tudo ao lado... e eu estou feliz com (quase) tudo o que acabou por acontecer! E a maior sombra nessa felicidade é sentir que, de alguma forma, sou uma desilusão para eles...

E pronto, desabafo cá fora, venha agora o meu melhor sorriso!
Hoje há almoço de família.
Comemora-se o primeiro ano de casamento da M. E os meus parabéns sentidos para ela e para o P.!!

14 de fevereiro de 2011

Sabemos que estamos a ficar velhos quando...

...é a piolha de 6 anos da família
que nos explica em pormenor o que é o Metin2
enquanto estamos as duas
a ver o irmão mais velho dela
a jogar...



(Quanto a mim, preferia que ela nem soubesse que o jogo existe, mas parece-me que isso já não é controlável, nos dias que correm...)

A velhice

Certas noites, confessou [Iara], sonhava com a velhice. Ansiava por ser mais velha. [...] Talvez nessa altura não tivesse de se esforçar tanto para que reparassem não nela, mas naquilo que dizia. 
A velhice é uma merda, contrapus. E nem são palavras minhas. Jorge Amado respondeu assim a uma jornalista que lhe elogiou a idade. Sim, minha querida, a velhice é uma merda. Não há vantagem alguma em perder os dentes ou o cabelo, ou o controle da bexiga. Ninguém merece envelhecer [...]. 

José Eduardo Agualusa
Milagrário Pessoal

Li esta passagem do livro em inícios de Janeiro, ainda o meu avô mal tinha chegado a meio do seu período de internamento. Ainda ninguém sabia se ele regressaria a casa... e, se o fizesse, em que condições...

Vejo-o hoje, sentado no sofá, apenas por cortesia para com os filhos e netos, pois estaria bem melhor na cama. Parado, fraquinho, sem destreza de movimentos, um espírito lúcido num corpo que não quer responder. Eu dizia há um mês atrás que me parecia que ele tinha desistido de viver. Hoje diria antes que ele quer viver, mas é uma alma demasiado frágil a remar contra a maré do próprio corpo.

A beleza da velhice tem o seu reverso.

Envelhecer é acumular saber. É ter para ensinar. É poder finalmente descansar e aproveitar o prazer de descansar num banco de jardim numa tarde de Sol. É ter tempo e paciência para brincar com os netos. É enfeitiçar a família com histórias do passado que se vão diluindo entre a memória e a imaginação. 

Mas envelhecer é também perder saúde e força. É deixar de ajudar para precisar de ajuda. É perder capacidades. Físicas e fisiológicas. Psicológicas também, por vezes.

Envelhecer é bonito quando se tem a sorte (?!) de viver o processo com qualidade e paz. De resto... nem sei que diga... 



30 de dezembro de 2010

Estradas de papel

Ao avô António, 
pela estranha saudade.
Ao avô João,
pelo desejo de melhoras rápidas.  

Diziam alguns que ele era um homem de poucas palavras. No entanto, pecava por ingenuidade aquele que pensasse que ficava alguma coisa por dizer. Falava com o olhar, com as mãos. Dizia meia palavra e aqueles que o amavam e compreendiam entendiam a mensagem.

Não se fala muito dele, como se verbalizar agudizasse a dor pela sua ausência. Não importa. Vou-me encontrado com ele nas pistas que deixou pelo caminho.

Encontro-o nas páginas dos livros que deixou arrumados na estante antes de partir, faltavam ainda alguns dias para eu vir ao mundo, há 27 anos atrás. Palavras escritas a carvão, sumidas porque se foram fundindo com o amarelecimento do tempo. Sublinhados, traços, palavras breves, reflexões e referências, tudo desenhado numa caligrafia lenta e estudada de menino de escola.

Era um homem do campo, mas fazia das viagens em tapetes de páginas voadoras a sua fuga dilecta, à luz ténue de uma candeia de azeite. Não se fechava naquele vasto mas ocluso mundo de terras e vinhedos protegidos pelas muralhas do vale. Não. Voava além destas e crescia, crescia…

E enquanto releio as suas anotações, nestes livros velhos mas imortais e sábios, percorro as mesmas estradas de papel que ele e, juro, se fechar os olhos, sinto a sua mão na minha, sinto que caminho lado-a-lado com ele...






Para o desafio de Dezembro,
com o tema Objectos, pessoas, sítios e acontecimentos.


Imagem: 
Old books, por David Reneses



6 de setembro de 2010

Assimilar e admitir

Suponho que seja inconsciente, mas diria que todos assumimos o cliché de achar que nunca nos acontece a nós nem aos nossos…

Eu assumo-o com toda a honestidade e por isso mesmo tenho uma dificuldade imensa de assimilação quando o cliché é descaradamente desmentido pela realidade…

Ela é a mais dura de todas as irmãs, a mais resistente, a que menos verga perante questões emocionais. Talvez por isso mesmo nunca tenha havido uma grande proximidade entre nós.

E foi a ela que aconteceu. Está a acontecer.

E eu nem consigo acreditar, quanto mais assumir.

O espírito é desdramatizar, acreditar que vai correr tudo bem… é assim que a família tem agido, pelo menos à luz do dia, porque dentro de nós a inquietação aumenta a cada minuto, a cada novo tratamento…

Não a tenho visto. Tudo normal, se tudo estivesse normal. Vemo-nos pouco, e isso não é de estranhar, pela distância. Mas não está tudo normal…

Ela diz que está bem, que está a reagir bem aos tratamentos e que se sente apenas um bocadinho entediada por estar de baixa. Não seria de esperar outra atitude da parte dela...

Mas como lidar com este medo, com o impasse de ver como evoluem as coisas, de saber que, mesmo que acabe tudo bem (e vai acabar tudo bem!), que ela vai ter de passar por tudo, por todos os efeitos colaterais, por todo o processo?...

Estou assustada, admito…