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16 de novembro de 2010

Poesia à meia-noite


Uma vénia e um sorriso.
Oculto por entre as cortinas da noite.
De olhos fechados, sente encher o ar 
o aroma de uma cumplicidade 
que não quer denunciar.
Amadores de meia-noite não desvendados.
Desenham-se em notas de música 
sorrisos e reencontros em palavras.
Reconhecem-se olhares perdidos 
nas brumas de um mapa onde, 
com passos dedilhados, 
chegam um ao outro num ápice.
Sentem-se carícias imaginadas.
Imaginam-se as que ficaram ainda por sentir, 
através do véu de seda 
de um sentimento 
alvo. 


26 de setembro de 2010

Sombra da luz


Chovem gotas de luz por entre a folhagem.
Plantam filigranas no verde das ervas.
Saltitam sobre as pálpebras e despertam-me do sonho.
Que querem?
Esperam que enfim abra a cortina do sono
para me sussurrarem com um sorriso:

A sombra é um desperdício de luz.
Deixa-a para a noite!
Vem!

~ Wasted daylight - Stars ~

16 de janeiro de 2010

Avalon

Regresso a casa. Sozinha.
A noite está fria e negra.
O som do rádio está junto a mim, mas sinto-o longe, muito longe.
A minha mente divaga por outras paragens.

Encontro perante mim uma nuvem densa.
Entro.
Não tenho como escapar.
Não quero escapar.

A bruma envolve-me e eu perco o rumo.
Já não discirno as linhas da realidade.
Já não sou eu que me conduzo, mas sim uma qualquer força que não entendo.
Não sei para onde vou.
Aquele é o caminho de sempre, mas já não o reconheço.

De repente, estou numa barcaça à deriva.
Sem remos.
Não vejo as estrelas.
Por fora da bruma, só a noite.
O meu corpo é embalado pelo ondular das águas.

Estou sozinha e não sei o que fazer.
Não há nada a fazer.
Só deixar-me ir.
Entrar nessa hipnose cantada pelo suave beijo entre as águas e o casco...
Imergir nessa nuvem misteriosa, escura, mas meiga e delicada...
Do outro lado estará talvez à minha espera a margem pacífica, o refúgio, da ilha secreta...
Fecho os olhos e deixo que me levem...

Img

29 de dezembro de 2009

Cumplicidades IV - Sintonias



Pergunto-me se sentiria tal sintonia se te tivesse ao estender da mão.
Pergunto-me se te encontraria no meio da multidão, se te saberia identificar no meio de tantos rostos anónimos que se cruzam diariamente sem querer saber.
Será que nos reconheceríamos ao mais simples e fugaz trocar de olhares?
Será que o subtil toque de dois desconhecidos, que chocam inadvertidamente porque vão demasiado distraídos a sonhar, seria suficiente para sentirmos que somos um só?
Será que me verias ao longe e saberias que era eu?
Será que no meio do ensurdecedor silêncio da multidões eu seria capaz de ouvir a melodia da tua voz?
Será que sentiríamos ambos esse ímpeto do beijo apaixonado, desse reencontro entre duas metades de uma só alma que alguma força superior quis um dia separar?

Robert Doisneau
Kiss by the Hotel de Ville
1950

1 de dezembro de 2009

Hipnose



Às escuras, paro e observo.
Lentamente,
deixo-me levar
pelo ritmo hipnotizante do piscar das luzes,
pelo entrelaçado tétrico das contas e das agulhas vivas,
pelo brilho ausente desses adornos de luz...

Desisto de procurar a voz da realidade
e escondo-me
no crepúsculo dos meus sonhos…
Aí, só aí, princesa de branco com lírios nos cabelos,
sou dona e senhora dos meus desejos…

Não estou em paz...
fico por lá até a encontrar...

20 de novembro de 2009

Ao amanhecer...

Os meus olhos abrem naturalmente, como se a noite me tivesse sussurado ao ouvido que não me queria mais inconsciente.
Não. A noite não.
A madrugada. Reina o seu silêncio ainda.
Por entre a rede densa da janela, gotas da luz ainda ténue e tímida do amanhecer salpicam o cortinado.
Sinto-me aconchegada e aninhada.
"Adormeci outra vez enrolada no roupão", penso.
As noites já não são clementes para com os ousados e fustigam-nos agora com um frio cortante.
Sinto-me feliz e acarinhada.
Que doce amanhecer!
Viro-me lentamente e é então que te vejo. És tu, afinal, quem me aconchegou dessa forma tão doce e me protegeu do frio e da solidão.
És tu que estás aqui comigo!
O roupão? Desse não preciso. Ficou na cadeira. Foste tu que o puseste lá, afinal. Eras tu quem havia de me afagar desta vez, não ele!
Sorrio.
Que forma perfeita de despertar, com a tua respiração suave contra a minha nuca e o bater do teu coração em sintonia com o meu!
Beijo-te ao de leve no rosto e digo bom dia bem baixinho.
Os teus lábios traçam um sorriso, depois as tuas pálpebreas levantam o cerco do sono e o teu olhar doce beija-me também.
Não são precisas palavras...

Enrolas-me novamente no teu regaço e prendes-me, como que dizendo para voltar a dormir...
Fecho os olhos e penso... Ainda não amanheceu, talvez feche os olhos e continue a sonhar contigo...


13 de novembro de 2009

Caminhar contigo



Caminhamos pela praia.
Os nossos pés sentem o fresco da manhã que a areia respira.
Sabe bem.

Aproxima-nos e faz-nos pedir sem palavras o calor um do outro.
O teu abraço envolve-me.
Sou pequena, caibo bem no teu regaço.

As pontas dos teus dedos brincam preguiçosamente no meu antebraço, como que querendo aí delinear o nosso caminho.

Por cima do mar, uma centelha do Sol desvia a cortina da névoa matinal e pisca-nos o olho em consentimento e cumplicidade.

Para onde caminhamos, afinal?
Em direcção a nós mesmos...

Porque as ondas da tua voz
lançam sobre mim salpicos de carinho.
Obrigada por isso....