Observo-a pelo canto do olho enquanto conduzo por estas ruas que sempre nos foram familiares. Lentamente vai escorregando pelo assento ao meu lado, até que o seu rosto fica alinhado com a linha do vidro. As mãos escondidas naquele cruzar de braços que denuncia defesa. Esconde-se agora atrás de gestos assim. Defesas. Barreiras. Silêncios. Muralhas que impedem novos assaltos. Fossos que a protegem do mal, mas que também a separam do bem que ansiamos por dar-lhe.
Fala pouco. Só aos poucos recomeçou a falar, depois do sucedido. Incitá-la a que o faça não adianta. Fecha-se mais. Resta-nos aguardar que seja ela a querê-lo. E eventualmente acontece. Como hoje, enquanto passamos pelo jardim onde já foi tão feliz, mas onde também se deparou um dia com o medo, a atrocidade e a violência.
- E pensar que me gabava tanto de andar por aqui sem que nunca me tenha acontecido nada… Nunca não existe. E eu devia saber disso.
Ouço-a impotente, sem saber o que dizer. A minha mão deixa o volante e caminha até ao seu cabelo. Apenas uma carícia suave e lenta. A minha voz silenciosa para a apaziguar. As palavras não preenchem a resposta de que ela necessita. As palavras não anulam o trauma que aquele escuro fim de tarde deixou em si. Encontraram-na inconsciente, as roupas despedaçadas, não mais do que farrapo humano. Assim a achou o guarda-nocturno quando a sua ronda o levou até ali. A maldita ronda que não passou por ali precisamente no momento em que ela precisou de protecção! Encontrou-a depois de tudo...
O percurso era o de sempre. A hora também. Final de tarde, final de expediente, regresso a casa. E a confiança também era a de sempre. Assim como a confiança e o calculismo dos que lhe observaram os passos e aguardaram pelo momento certo… pelo momento errado! O momento que levou o viço e a alegria de viver que emanavam dela. Nunca os apanharam. Ninguém sabe ao certo o que aconteceu. Ela não fala. Fecha-se num silêncio intransponível, como se isso atenuasse a dor, um gesto em nome de um esquecimento voluntário.
Pela janela do carro que lhe emoldura o rosto fechado, perscruta o jardim quando passamos por ele se o nosso caminho não permite evitá-lo. Parece ausente o seu olhar, parecem distantes e frias as palavras como estas que acaba de lançar. E no entanto sei que lá dentro a recordação negra continua viva, tão viva…
Pudera eu dar-lhe amnésia e trazê-la de regresso dos dias antes de…
Imagem:
Out the window, Michal Besser
Para o desafio de Março,
com o tema Violência