Há um par de anos atrás, numa loja de tapetes enquanto acompanhava dois amigos que estavam na altura a decorar a sua casa, dei por mim a olhar para a etiqueta de um tapete - muito feito, por sinal - onde figurava o valor de 600€ e dizer "Olha, este é
barato!". Certamente que um tapete por 600€, ainda por cima feio, é uma enormidade, mas naquele momento foi isso que me saiu, depois de ter circulado pela loja e de ter visto um sem-número de tapetes, uns lindos, outros nem tanto, acima dos 1200€. É claro que em perspectiva, o de 600€ me pareceu francamente barato.
É quase sempre assim. Depois de termos passado por algo
mais duro,
mais intenso,
mais complicado,
mais caro, quando nos aparece pela frente algo que, por comparação, é
menos do que o anterior, ficamos com a sensação de que temos perante nós uma trégua, uma réstia de sol por entre as nuvens da tempestade.
A A. foi hoje a uma entrevista de emprego e está muito entusiasmada. As condições são boas. Um horário regular, uma boa localização, que permite deslocar-se comodamente em transportes públicos, uma remuneração aceitável, funções dinâmicas e estimulantes.
Já perdi a conta aos diferentes empregos que a A. já teve. Uma loja de roupa, restaurante e supermercado dos pais, uma pastelaria (fabulosa), um hipermercado, tudo antes de concluir o curso, e depois professora do secundário, do básico, das AEC's, explicadora, formadora*, gestora de uma empresa, operadora de call centre... Esqueci-me de alguma? A A. já teve de enfrentar a constatação do fim de um sonho profissional, já teve de se sujeitar a acumular 4 part-times (4, meu deus!) para conseguir um ordenado mais ou menos normal e sei lá que outros desafios.
Surge-lhe agora a oportunidade de entrar para uma empresa onde eu já trabalhei e que já conheço bem, para assumir funções que pouco se prendem com questões didácticas, funções que envolvem a estimulante, mas também frustrante vertente de trabalhar por objectivos e que assumem um pendor comercial. Olho para o espólio de profissões que ela já teve e penso: bom, genica não lhe há-de faltar, paleio muito menos. Ela dá conta do recado!
Seja como for, não consigo deixar de pensar nesta questão da perspectiva: depois de um percurso tão atribulado, é claro que este emprego é
bom, como o tapete que é
barato.
Estou preocupada e apreensiva contigo, claro que estou!
Porque quero que as coisas comecem finalmente a correr melhor para ti.
Só queria era que as coisas fossem mais fáceis e que conseguisses um lugar a fazer aquilo de que realmente gostas e em que és boa.
* É a isto que se sujeitam
pessoas como eu que quiseram procurar o seu futuro
no mundo do ensino.
No meu caso,
felizmente (acho) acabei por entrar num atalho
que se revelou ser
o melhor caminho
para a estrada principal.