Suponho que seja inconsciente, mas diria que todos assumimos o cliché de achar que nunca nos acontece a nós nem aos nossos…
Eu assumo-o com toda a honestidade e por isso mesmo tenho uma dificuldade imensa de assimilação quando o cliché é descaradamente desmentido pela realidade…
Ela é a mais dura de todas as irmãs, a mais resistente, a que menos verga perante questões emocionais. Talvez por isso mesmo nunca tenha havido uma grande proximidade entre nós.
E foi a ela que aconteceu. Está a acontecer.
E eu nem consigo acreditar, quanto mais assumir.
O espírito é desdramatizar, acreditar que vai correr tudo bem… é assim que a família tem agido, pelo menos à luz do dia, porque dentro de nós a inquietação aumenta a cada minuto, a cada novo tratamento…
Não a tenho visto. Tudo normal, se tudo estivesse normal. Vemo-nos pouco, e isso não é de estranhar, pela distância. Mas não está tudo normal…
Ela diz que está bem, que está a reagir bem aos tratamentos e que se sente apenas um bocadinho entediada por estar de baixa. Não seria de esperar outra atitude da parte dela...
Mas como lidar com este medo, com o impasse de ver como evoluem as coisas, de saber que, mesmo que acabe tudo bem (e vai acabar tudo bem!), que ela vai ter de passar por tudo, por todos os efeitos colaterais, por todo o processo?...
As nossas memórias nunca são verdadeiras ou absolutamente verdadeiras, são apenas uma interpretação. Existem outras, e ao longo dos anos vamos vendo o passado com uma luz diferente. As nossas memórias vão sendo vistas de diferentes perspectivas, conforme aquilo que aprendemos e conforme aquilo que sentimos no instante em que as relembramos.
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Raskolnikov, protagonista foragido de Crime e Castigo e refugiado algures em Fahrenheit 451, em busca de paz e de libertação da sua culpa, fala assim para Elias Bonfim, também ele foragido da realidade, perdido algures num dos livros da estante do sótão da avó...
Pergunto-me quantos mais romances de autores portugueses andarão por aí sem que uma editora lhes dê a oportunidade de serem publicados e promovidos...
Li algures que o argumento - pelo menos um dos seus planos - peca por alguma brusquidão... Contudo, não foi isso que ficou na minha impressão: agradou-me e muito o predomínio declarado do intertexto (estratégia pela qual nutro um enorme carinho), do invocar de livros, autores, personagens, de os reunir e de os dinamizar. Agradou-me a viagem literária, por estes "universos paralelos" "encostados uns aos outros numa prateleira". Sim, aqui a expressão entrar no livropassa a ser literal.
Lê-se de um fôlego (mas sem ter de suster a respiração!) com um sorriso no rosto. E fecha-se os olhos e sonha-se com os mundos dos livros por onde Elias se passeia...
O encanto está na capa, de Benjamin Lacombe, um ilustrador jovem, mas com um portfólio sublime.*
O encanto está na história, muito na história!
A prova de que não são precisos floreados nem reflexões imperceptíveis para criar uma obra.
Basta simplicidade, criatividade e um coração que só pode ser bonito.
No caso de Mathias Malzieu, o resultado aqui foi um livro que é uma grande metáfora de um sentimento (O Sentimento) disfarçada com roupagens de ficção.
O coração de Jack, alegadamente mecânico, tem uma prótese-relógio altamente susceptível a emoções fortes. Assim mesmo, a apesar de todos os avisos, Jack corre atrás do seu amor, do seu sonho, ciente de que isso poderá ser-lhe fatal, mas sem lhe conseguir resistir. (Mais não convém contar, certo?)
Só penso numa coisa: encontrá-la de novo.
Saborear mais uma vez, o mais depressa possível,
a mesma sensação inefável.**
Posso magoar-me, e depois?
É uma questão de me consertarem mais vezes o coração.
Desde que nasci que não fazem outra coisa.
Estou em risco de vida? Talvez, mas também arrisco
a vida se não voltar a vê-la
e na minha idade isso ainda é mais grave.
O encanto está na música também. O seu autor, com a banda desenvolveu um trabalho paralelo (não sei se anterior, posterior ou simultâneo, mas não importa) no plano musical, que acaba por servir de banda sonora ao livro.
Agora o difícil vai ser escolher um sucessor à altura para ter à cabeceira nos próximos dias...
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*Agora a desenvolver um trabalho inspirado na
Alice do País das Maravilhas! A espreitar!!
** Suspiro assim que termino de transcrever esta frase.
Depois do lançamento de Orgulho e Preconceito e Zombies, a versão gore da principal obra da autora (que provoca em mim um esgar de náusea de cada vez que entro numa livraria), eis que me cruzo com este trailer:
Bom, ao contrário da reacção ao livro, confesso que me ri bastante com isto!
É claro que tinha de ser a Lizzie a lançar a confusão, e é claro que a Emma tinha de meter o bedelho em grande estilo! E, bolas, realmente a vida no período da Regência devia ser uma grande seca, então, porque não apimentar as coisas! :)
Ainda que a ideia de 'profanar' as heroínas da autora me arranhe ligeiramente a susceptibilidade, suponho que a vontade de explorar o seu trabalho seja uma forma de reavivar o interesse geral pela mesma. Estratégia de marketing? Possivelmente...
Acreditava em infinitas séries de tempos, numa rede crescente e vertiginosa de tempos divergentes, convergentes e paralelos. Esta trama de tempos que se aproximam, que se bifurcam e se cortam ou que secularmente se ignoram, abrange todas as possibilidades.
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O Jardim dos caminhos que se bifurcam, que o seu autor defende ser um policial, é antes toda uma reflexão sobre o Tempo, a sua não-linearidade, o entrecruzar dos mesmos tempos para as mesmas pessoas que, em cada um deles, vivem decisões diferentes...
Num mesmo tempo acontecem em simultâneo todas as hipóteses - ficar e seguir, dizer sim e não, aceitar e recusar, conhecer e ignorar...
Em qual desses planos entramos nós?
E como fazer para saltar entre eles e experimentá-los, escapar à condenação da linearidade?...
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Começo a nutrir um enorme carinho pela forma como Jorge Luis Borges abre as portas a planos completamente diferentes, insólitos e impossíveis, partindo sempre do que é palpável e real. Um eremita que cria um ser a partir do seu sonho, uma sociedade pacífica cuja lei passa a ser o Acaso, o tempo que deixa de ser linear e permite todas as possibilidades, uma terra que não existe mas que está documentada numa enciclopédia...
E porque o início da viagem é sempre o nosso real, quando chegamos ao último ponto, não conseguimos fechar de imediato o plano da ficção e eliminar o seu efeito sobre nós...