19 de agosto de 2010

Caminhos que se bifurcam


Acreditava em infinitas séries de tempos, numa rede crescente e vertiginosa de tempos divergentes, convergentes e paralelos. Esta trama de tempos que se aproximam, que se bifurcam e se cortam ou que secularmente se ignoram, abrange todas as possibilidades.

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O Jardim dos caminhos que se bifurcam, que o seu autor defende ser um policial, é antes toda uma reflexão sobre o Tempo, a sua não-linearidade, o entrecruzar dos mesmos tempos para as mesmas pessoas que, em cada um deles, vivem decisões diferentes...
Num mesmo tempo acontecem em simultâneo todas as hipóteses - ficar e seguir, dizer sim e não, aceitar e recusar, conhecer e ignorar...

Em qual desses planos entramos nós?
E como fazer para saltar entre eles e experimentá-los, escapar à condenação da linearidade?...



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Começo a nutrir um enorme carinho pela forma como Jorge Luis Borges abre as portas a planos completamente diferentes, insólitos e impossíveis, partindo sempre do que é palpável e real. Um eremita que cria um ser a partir do seu sonho, uma sociedade pacífica cuja lei passa a ser o Acaso, o tempo que deixa de ser linear e permite todas as possibilidades, uma terra que não existe mas que está documentada numa enciclopédia...

E porque o início da viagem é sempre o nosso real, quando chegamos ao último ponto, não conseguimos fechar de imediato o plano da ficção e eliminar o seu efeito sobre nós...

18 de agosto de 2010

A educação musical de Anna VI


Woke up this morning
feeling
so strongly and naturally impelled to
go and spoil it all...




Somethin' stupid - Devotchka

16 de agosto de 2010

Palavra do dia

Último trabalho da pós-graduação entregue.
Dentro do prazo.

Falta o lançamento das notas do terceiro trimestre...

Respeito (ou falta dele)*

* ou a melhor forma de regressar ao trabalho


Há cerca de três meses, mudei-me para a secretária (e para o computador) de uma colega que entrou em licença de maternidade. Assumi temporariamente algumas das suas funções, impondo-se portanto esta mudança, também ela temporária...

Regressei esta manhã ao trabalho, depois de uma semana de férias.
Encontro a minha secretária habitual ocupada por uma colega que, além de não ter tido o civismo de me perguntar se me importava que o fizesse, foi suficientemente hipócrita ao ponto de fazer a mudança precisamente na semana em que estive fora! Sendo que a minha secretária tem estado desocupada desde há 3 meses, não percebo a lógica da mudança precisamente durante a minha semana de férias…

Neste momento, nem sequer me apetece olhar para a cara dela, quanto mais dirigir-lhe a palavra, correndo o risco de, ao fazê-lo, perder também eu o civismo e o respeito que considero devidos entre colegas de trabalho, quer existam ou não afinidades para além disso mesmo

15 de agosto de 2010

Pensamento do dia*




Se as nuvens estiverem a passar muito depressa,
é possível que o mundo tenha acelerado o seu ritmo...




*12 de Agosto de 2010
A sentir o mundo girar muito muito depressa...

14 de agosto de 2010

Olhitos azuis numa tarde de só e de sol

13 de Agosto de 2010
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Finalmente empenhada em avançar no último trabalho desta interminável pós-graduação, aqui estou eu, na esplanada do Sunrise, entre pensamentos a pairar, palavras a fluir sem compasso no papel e goles de sumo de laranja.
Comigo, papéis (alguns deles a esvoaçar), o PC e o livro escolhido para analisar, promover - whatever - Educar sem Gritar (bem interessante, por sinal).


Inclinada sobre a mesa, o olhar no papel, pelo canto do olho pressinto: primeiro uma sombra junto aos meus pés, depois um pezinho pequenino numa havaiana azul que se aproxima da cadeira.
Levanto o olhar e lá está ele, uns enormes olhos azuis, à altura do braço da cadeira, a observar-me atentos e interessados.
Sorrio.
Recebo um sorriso de volta. (É essa a sua linguagem, ainda.)
Atrás, o pai.
«Diz olá à menina, Tomás! E diz-lhe também que esta pode ser a oportunidade para pôr em prática o que está a estudar.»
Demoro um instante a assimilar a analogia - Educar sem Gritar...

Achei delicioso: acima de tudo, ter sido interpelada por dois amorosos olhos azuis a condizer com o horizonte ao fundo; mas também por ter encontrado o interesse e reconhecimento daquele que se pretende que seja o público-alvo interessado para o livro que, afinal, não passa mesmo incólume, pelo menos para aqueles que aspiram lidar com os seus filhos da melhor forma possível.

13 de agosto de 2010

Sísifo

Recomeça…
Se puderes,
Sem angústia e sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro,
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,
Vai colhendo
Ilusões sucessivas no pomar
E vendo
Acordado,
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças.

Miguel Torga
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A mensagem é fabulosa...
As interpretações, essas, estão a cargo dos nossos sentimentos apenas.


Recomeçar é uma escolha, muitas vezes;
uma obrigação, outras tantas...
Recomeçar pode ser voltar ao ponto de partida, fazer as coisas de forma diferente e bem, mas com o mesmo objectivo ao fundo da linha.
Recomeçar pode ser reescrever tudo de forma diferente.


Se na loucura me reconheço, então o meu caminho é a loucura.
E se acordada, lúcida, vejo perante mim a loucura que se desenhou no sonho, então a resposta está aí mesmo...

10 de agosto de 2010

If only we could...






Obrigada a ti
que me deixaste esta música para animar e voar...

Voar seria bom,
porque andar com os pés no chão neste momento está a pesar demasiado...


Looking into all your lives
And wondering why
Happiness is so hard to find

A língua das ondas

Correntes inconstantes e dúplices.
Correntes que se aproximam com ternura e nos beijam a pele.
Correntes duras que impelem contra mim e deixam arranhões.
Dança sem regras.

Balanço neste jogo dual,
sem controlo sobre si nem palavra a invocar.
O corpo não me pertence já.
É delas e nas suas mãos vai vogando
num rumo que não decido nem entendo.
E com o fluir dessa dança já não sou eu
mas um espectro de mim
que observo do areal.

Grito, mas não falo a língua das ondas.
Ver-me ondeando naquele pêndulo descompassado traz a tontura.
A tontura da fuga.
Desvio o olhar e giro sobre o eixo do meu ser.
Avanço no areal molhado pela maré.
Passadas pesadas adquirem subitamente uma ligeireza improvável.
A ligeireza da fuga.

No caminho, os rostos são vultos,
as vozes são ecos,
as palavras são sons.
A essência perdeu-se algures e ficaram apenas as formas.
O que ficou atrás?
Não sei, não posso olhar.
Se o fizer, serão estátuas de sal.
A deixar o rasto efémero na areia,
já não os pés, mas sim a mente.

Mais depressa.
Mais fundo na areia.
A brisa tímida do mar parece ganhar vigor
à medida que a velocidade aumenta.
Mais depressa.
Como se assim lhe aumentasse a força
e a ungisse com o dom de sacudir este sal em pó
que me secou à flor da pele.
Mais depressa.
Como se o fôlego não faltasse nunca
e se não houvesse paragem possível.
Como se o mundo fosse uma linha infinita
e não um círculo em que fim e início se reencontram sempre.
Mais…
Mas o fôlego cessa.
O ar cessa.

Gradualmente, tacteiam novamente a areia os pés
e o frio da água volta a chegar às veias
Na bússola do eixo de mim, o caminho é para o mar.
Entro, afundo novamente no ondear das correntes.
Espectro e corpo voltam a ser um só
ambos rendidos ao pêndulo indeclinável…

6 de agosto de 2010

Impulso

Maior, muito maior do que nós.

Um apelo irresistível que vem do lugar mais profundo de ti e que passa pela Razão à velocidade da luz, sem abrandar, sem se deixar ver com nitidez.

Não o vemos acontecer. Quando damos por nós, estamos embrenhados numa espiral semi-translúcida que te deixa entrever apenas pormenores desfocados do que se passa lá fora, naquela calmaria de onde viemos, afinal, mas que não reconhecemos como nossa já.

O caminho é ascendente.
A velocidade vertiginosa.

Como a uma abelha, o que nos atrai é a luz, aquele brilho incandescente, enfeitiçante, belo, mas também traiçoeiro, que nos pode queimar se não travarmos a tempo, mas que é tão sublime que queremos desesperadamente tocar-lhe.

A frio, saberias onde parar, mas assim envoltos no ritmo desta espiral, ondulante e tão natural que parece vir de dentro de ti, não há distâncias de segurança, apenas sentir. E querer.



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Como
 é que se descreve
o que não é de descrever?