14 de agosto de 2010

Olhitos azuis numa tarde de só e de sol

13 de Agosto de 2010
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Finalmente empenhada em avançar no último trabalho desta interminável pós-graduação, aqui estou eu, na esplanada do Sunrise, entre pensamentos a pairar, palavras a fluir sem compasso no papel e goles de sumo de laranja.
Comigo, papéis (alguns deles a esvoaçar), o PC e o livro escolhido para analisar, promover - whatever - Educar sem Gritar (bem interessante, por sinal).


Inclinada sobre a mesa, o olhar no papel, pelo canto do olho pressinto: primeiro uma sombra junto aos meus pés, depois um pezinho pequenino numa havaiana azul que se aproxima da cadeira.
Levanto o olhar e lá está ele, uns enormes olhos azuis, à altura do braço da cadeira, a observar-me atentos e interessados.
Sorrio.
Recebo um sorriso de volta. (É essa a sua linguagem, ainda.)
Atrás, o pai.
«Diz olá à menina, Tomás! E diz-lhe também que esta pode ser a oportunidade para pôr em prática o que está a estudar.»
Demoro um instante a assimilar a analogia - Educar sem Gritar...

Achei delicioso: acima de tudo, ter sido interpelada por dois amorosos olhos azuis a condizer com o horizonte ao fundo; mas também por ter encontrado o interesse e reconhecimento daquele que se pretende que seja o público-alvo interessado para o livro que, afinal, não passa mesmo incólume, pelo menos para aqueles que aspiram lidar com os seus filhos da melhor forma possível.

13 de agosto de 2010

Sísifo

Recomeça…
Se puderes,
Sem angústia e sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro,
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,
Vai colhendo
Ilusões sucessivas no pomar
E vendo
Acordado,
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças.

Miguel Torga
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A mensagem é fabulosa...
As interpretações, essas, estão a cargo dos nossos sentimentos apenas.


Recomeçar é uma escolha, muitas vezes;
uma obrigação, outras tantas...
Recomeçar pode ser voltar ao ponto de partida, fazer as coisas de forma diferente e bem, mas com o mesmo objectivo ao fundo da linha.
Recomeçar pode ser reescrever tudo de forma diferente.


Se na loucura me reconheço, então o meu caminho é a loucura.
E se acordada, lúcida, vejo perante mim a loucura que se desenhou no sonho, então a resposta está aí mesmo...

10 de agosto de 2010

If only we could...






Obrigada a ti
que me deixaste esta música para animar e voar...

Voar seria bom,
porque andar com os pés no chão neste momento está a pesar demasiado...


Looking into all your lives
And wondering why
Happiness is so hard to find

A língua das ondas

Correntes inconstantes e dúplices.
Correntes que se aproximam com ternura e nos beijam a pele.
Correntes duras que impelem contra mim e deixam arranhões.
Dança sem regras.

Balanço neste jogo dual,
sem controlo sobre si nem palavra a invocar.
O corpo não me pertence já.
É delas e nas suas mãos vai vogando
num rumo que não decido nem entendo.
E com o fluir dessa dança já não sou eu
mas um espectro de mim
que observo do areal.

Grito, mas não falo a língua das ondas.
Ver-me ondeando naquele pêndulo descompassado traz a tontura.
A tontura da fuga.
Desvio o olhar e giro sobre o eixo do meu ser.
Avanço no areal molhado pela maré.
Passadas pesadas adquirem subitamente uma ligeireza improvável.
A ligeireza da fuga.

No caminho, os rostos são vultos,
as vozes são ecos,
as palavras são sons.
A essência perdeu-se algures e ficaram apenas as formas.
O que ficou atrás?
Não sei, não posso olhar.
Se o fizer, serão estátuas de sal.
A deixar o rasto efémero na areia,
já não os pés, mas sim a mente.

Mais depressa.
Mais fundo na areia.
A brisa tímida do mar parece ganhar vigor
à medida que a velocidade aumenta.
Mais depressa.
Como se assim lhe aumentasse a força
e a ungisse com o dom de sacudir este sal em pó
que me secou à flor da pele.
Mais depressa.
Como se o fôlego não faltasse nunca
e se não houvesse paragem possível.
Como se o mundo fosse uma linha infinita
e não um círculo em que fim e início se reencontram sempre.
Mais…
Mas o fôlego cessa.
O ar cessa.

Gradualmente, tacteiam novamente a areia os pés
e o frio da água volta a chegar às veias
Na bússola do eixo de mim, o caminho é para o mar.
Entro, afundo novamente no ondear das correntes.
Espectro e corpo voltam a ser um só
ambos rendidos ao pêndulo indeclinável…

6 de agosto de 2010

Impulso

Maior, muito maior do que nós.

Um apelo irresistível que vem do lugar mais profundo de ti e que passa pela Razão à velocidade da luz, sem abrandar, sem se deixar ver com nitidez.

Não o vemos acontecer. Quando damos por nós, estamos embrenhados numa espiral semi-translúcida que te deixa entrever apenas pormenores desfocados do que se passa lá fora, naquela calmaria de onde viemos, afinal, mas que não reconhecemos como nossa já.

O caminho é ascendente.
A velocidade vertiginosa.

Como a uma abelha, o que nos atrai é a luz, aquele brilho incandescente, enfeitiçante, belo, mas também traiçoeiro, que nos pode queimar se não travarmos a tempo, mas que é tão sublime que queremos desesperadamente tocar-lhe.

A frio, saberias onde parar, mas assim envoltos no ritmo desta espiral, ondulante e tão natural que parece vir de dentro de ti, não há distâncias de segurança, apenas sentir. E querer.



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Como
 é que se descreve
o que não é de descrever?

31 de julho de 2010

A educação musical de Anna V

Mais em jeito de recordação de uma conversa numa manhã,
em que sono, sonho e um sorriso conviviam harmoniosamente em mim...
A recordar, aquela frase...



30 de julho de 2010

A ti, Tempo

Espera

Horas, horas sem fim,
pesadas, fundas,
esperarei por ti
até que todas as coisas sejam mudas.

Até que uma pedra irrompa
e floresça.
Até que um pássaro me saia da garganta
e no silêncio desapareça.

Eugénio de Andrade
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Na convergência dos interesses de duas pessoas, chega até mim este pequeno poema...

Para ti, Tempo, que às vezes me apetece odiar.
Para ti, que me apetece ser tua dona e fazer-te ceder aos meus caprichos, fazer-te avançar veloz como o fluir do vento do deserto e até chegar àquele desfecho desejado. Depois, como quem pára uma sequência de vídeo, fazer-te parar para que possa aproveitar cada instante que me for dado a viver.
Deixa para o Espaço a distância, esse traço que queres fazer só teu.
Horas, dias, meses... todos teus, Tempo. Partilha-os e nós faremos deles novas histórias...

27 de julho de 2010

Casa & Lar

A pequena Fö convidou-nos a nós, carinhas perfeitas*, para conhecer o seu pequeno novo formigueiro e para uma experiência culinária inesquecível (há slight possibility disto correr terrivelmente mal).
E aconteceu no passado sábado!
O formigueiro, perdido nos confins de Benfica, é afinal suficiente para acolher 10 amigos e 1 bebé - e ainda inclui um simpático pátio onde se improvisam piqueniques e se fazem sestas subtis - e a experiência culinária correu terrivelmente bem!

Com estas alminhas, as conversas oscilam sempre entre acessos de loucura e momentos de seriedade, questões realmente elevantes e divagações sobre "o sexo dos anjos" e, na grande maioria das vezes, o que acontece é uma mistura curiosa de ambas.

Desta vez, foi a Fö que lançou a questão, muito a propósito e já ao final da noite, quando a capacidade de argumentação é pouca e a espontaneidade das sugestões muita.
 
 
 
Qual é a diferença,
afinal,
entre casa e lar?
 
 

 
As respostas estiveram longe da unanimidade...
Quais são os factores que marcam a diferença?
Diria que lar implica aconchego, protecção, cumplicidade, afecto... e necessariamente partilha. Houve quem advogasse que lar pode ser um espaço só nosso, que o podemos construir sozinhos, e nesse caso, lar implicaria independência. Mas isso não será apenas uma casa? Sim, posso ter uma casa, um espaço meu, criado à medida do que me faz falta... mas será que lar não tem muito mais a ver com família?... Uma casa será acolhimento físico e um lar será tanto físico como - e sobretudo - emocional, não?...
 
Será meramente semântica a questão?
Será que afinal não há diferença?
Falta-me a resposta óptima, mas insisto nos meus argumentos...
 
 
*Tudo palavrinhas da própria Fö!!

25 de julho de 2010

Palavra do dia*

*ou antes, da tarde!

ebulição

1. acto de ferver
2. transformação de um líquido em vapor, que ocorre dentro da própria massa líquida
3. vaporização rápida e tumultuosa, a determinada temperatura e pressão exterior, em toda a massa do líquido
4. (figurado) efervescência; agitação; excitação
(da Infopédia)

Sim,
adequa-se perfeitamente ao meu estado neste momento!

Por fora:
- calor, calor insuportável, que não me deixa respirar!!!
- ninguém pôs água no frigorífico e a água sai tépida da torneira de água fria!
- não tenho AC... a ventoinha está no sótão ainda (PORQUÊ PAHHHH?!!!!!)
- a janela deixa entrar mais ar quente do que vento fresco, e de janela fechada a luz eléctrica aquece ainda mais o ar!!!

E por dentro:
- a fazer um trabalho-teste para entregar amanhã, para o qual não estamos minimamente preparados...
- falta-me a paciência!
- o prof é um sacana idiota que não nos deu ferramentas para fazer esta coisa com o mínimo de sucesso! Sacana!
- as horas estão a passar e isto não está a avançar...
- olho para o enunciado e só vejo a cara do sacana. Apetece-me gritar!
- quero atirar isto tudo pela janela, desistir, mas desistir não é de mim!
- mas quem é que faz trabalhos académicos em Portugal nesta altura do ano?!
- mas quem é que consegue pensar produtivamente com este calor?!!!

Oh, se fazer esta bendita coisa fosse tão fácil como divagar na blogosfera...

Ahhhh, preciso de respirar!!!!

A escrever aqui para tentar desanuviar...
Ou para canalizar energias...
Já tentei ir apanhar ar, mas o calor lá fora não ajuda a atenuar a ebulição acelerada...

Ahhhhh raiva!!!!

24 de julho de 2010

Palavras inconscientes I

(a balançar à solta pelo silêncio)

Tenho vontade de odiar-te, tempo!
Quem não pode quer com toda a alma.
Quem pode nem se dá ao trabalho.
Em quanto tempo se criam afinal as afinidades?...
E como se perdem elas?

Só... bolas que eco estranho...
Mas de Kant porquê?...
E onde é afinal casa?
Estrela cadente que se atravessa à minha frente.
Depressa, grita o teu desejo!
E a lua aparece à esquerda por cima da serra.
Ela sabe, ela está a ver.
Sorrio.
Rio.
Choro.
Choro com um sorriso...

Preciso de dormir... 
Preciso de colo...