12 de abril de 2010

Cair

Do alto do promontório, olho para o rebentar borbulhante das ondas lá em baixo. No seu ritmo inconstante, as vagas vão açoitando o rochedo dourado que, assim fustigado, mais parece um gigante assustado e vulnerável.

Neste vai e vem, a vertigem leva-me.

Olho para baixo, para aquele instável chão de água e já não vejo mais nada. Não sei onde estou nem sinto já o chão debaixo dos meus pés. Sinto-me cair, sem rumo, sem corda, sem rede lá em baixo. Sinto as ondas de vento que me arrepiam a pele… ou serei eu que vou rasgando o seu tecido invisível ao longo da queda? Subitamente, começa a parecer-me tão sólido e seguro aquele mar azul turvo que, sei-o bem, é tão movediço como os lendários areais armadilhados que engolem todos os que apanham…

Nesta descida a pique, a velocidade aumenta e, estranhamente, o destino parece cada vez mais longínquo.

Vou sentindo no corpo o toque das memórias de dias de amor e sorrisos, os beijos daquele amante secreto, nunca esquecido, mas há muito ido para bem longe. Vou revendo as manchas deixadas pelo Sol daqueles dias irreflectidos em que as horas eram meros compassos dentro duma insignificante máquina e que nenhum poder tinham fora dela. Vou revisitando os arranhões do gato preto e branco, desse misterioso ser, tanto arisco como doce e apaixonado. Vou recordando o toque fresco do campo de trigo ainda verde nas minhas pernas, nesses dias em que corria descalça e acreditava que nunca me cansaria.

A descida acelera, irreversível agora, e o azul escurece, mais e mais…

De repente, tudo pára.

Imobilizada a imagem, abro os olhos, aponto-os novamente em direcção ao fundo do precipício e lentamente vou subindo até chegar ao horizonte, aquela linha ténue que separa os dois azuis. Estou ainda tão longe de alcançar esse horizonte…

Respiro fundo, deixo que o ar frio e salgado entre em mim por instantes e viro as costas ao abismo.

Não, o final não é, ainda, para hoje.

~ ~ ~ ~



Para o desafio de Abril,
subordinado ao tema Abismo


Foto minha
Praia do Vau,
11 de Abril de 2010

8 de abril de 2010

Há dias em que...

...não pára de gritar na minha cabeça...

7 de abril de 2010

(a) caminho

Enquanto percorria o caminho, fui gradualmente percebendo… Se, com o sol a bater-me no rosto, julgava levar comigo algo que fazia falta a alguém, fica de súbito muito claro que, pelo contrário, ia sim ao encontro de algo que me fazia falta a mim.


Do alto de toda esta pretensão, desta necessidade de provar a tudo e a todos que sim, que sobrevivo, que me aguento de pé sem ajuda, mesmo no meio de um furacão, vou percebendo que não sou mais do que um pequeno barquito, resistente e teimoso, que ora vai vogando ao sabor da maré, ora se insurge contra o vendaval, sempre convicto de que se salva a si e que, mais, insiste em salvar o seu marinheiro. Esse pequeno ser divagante precisa afinal de um porto de abrigo, de um cais onde possa finalmente parar e deixar acalmar a sua respiração...

4 de abril de 2010

Coisas de tia


O que é isto, Coelhinho?
É uma
mánica tofográfica,
tia!!

3 de abril de 2010

I'm...

... in desperate need of shoes...

1 de abril de 2010

e e cummings

Até mesmo quem perdeu as maiúsculas é capaz de se exprimir da forma mais doce e encantatória...

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i carry your heart with me(i carry it in
my heart)i am never without it(anywhere
i go you go,my dear; and whatever is done
by only me is your doing,my darling)
i fear
no fate(for you are my fate,my sweet)i want
no world(for beautiful you are my world,my true)
and it's you are whatever a moon has always meant
and whatever a sun will always sing is you

here is the deepest secret nobody knows
(here is the root of the root and the bud of the bud
and the sky of the sky of a tree called life;which grows
higher than the soul can hope or mind can hide)
and this is the wonder that's keeping the stars apart

i carry your heart(i carry it in my heart)

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29 de março de 2010

Just wandering*...

* not wondering...
Chefe para a Anna:
Então?! Estás aí tão caladita e murchita...
Anna:
Oh, estou preocupada...
Tenho teste amanhã... estudei pouco... e a capacidade de concentração e a animação não abundam...
Chefe:
Vai correr bem! És uma craque, acabas por dar sempre a volta por cima e em grande estilo...


Craque, craque... palavra parva!
Anna, googladora compulsiva, sujeita a pobre palavrinha ao fofo motor de pesquisa....

Os resultados:
[1]
1. som imitativo de um desmoronamento Hmm... chefe, era para motivar...
2. série de falências bancárias, insolvência Falências?!! Opah, chefe!!!
(Do al. Krach, «ruído; estalido; crise financeira; bancarrota)

[2]
1. indivíduo ou coisa digna de elogio; ás Gosto desta!!
2. Brasil indivíduo famoso, sobretudo em desporto; ídolo A melhorar...
(Do ing. crack, «jogador notável; cavalo famoso»)

[3]
(narcótico) = crack Hmmm!!! Ok! Pode ser! Só hoje, tá?!
(Do ing. crack, «id.»)




Os níveis de sanidade mental estão num nível muito muito preocupante!!
E acabaram as Lays Gourmet!!!
Como é que eu vou estudar sem Lays Gourmet?!!
Oh desgraça...

28 de março de 2010

Desabafo

Irrita-me a forma como puxas para ti o meu sobrinho, tia... E ele já está tão viciado nas tuas brincadeiras fantásticas, na possibilidade de fazer tudo o que quer e pede, nos teus inúmeros presentes, que já nem precisa de escolher... vira-me as costas com a maior facilidade do mundo... eu não sou a tia fixe...
Já não basta que tu o vejas todos os dias, que ele grite por ti, a plenos pulmões, orgulhoso, no pátio da escola... Eu só o tenho comigo duas vezes a cada semana... e nem esse espaço deixas para mim...

Hoje, gostaria de não ter de estudar e de poder brincar mais com ele, é verdade... Infelizmente, não posso adiar algumas coisas da minha vida em nome de outras que me deixariam necessariamente mais feliz... Mas roubá-lo para a tua casa no único dia em que o posso ter perto de mim?!

Às vezes apetece-me gritar isto tudo, à frente de todos os que me vêem, impotente, deixar que tudo isto aconteça e que não percebem como isso me afecta... Mas não o posso fazer, não o quero fazer... e porquê? Porque te amo, por muito que o possas duvidar...

Sei - acredito - que nada do que me fazes sentir é intencional ou consciente... mas gostava tanto que tivesses um pouco de sensibilidade e olhasses para mim e para o reflexo das tuas atitudes e palavras em mim... consegues fazer-me sentir uma falhada, como tia, sobrinha, filha, neta e até como mulher...

27 de março de 2010

Para um amigo...

Penso em ti e preocupo-me contigo, sabes bem disso...
Apesar disso, não tenho as palavras certas - não sei sequer se as há - para te fazer sentir melhor...

De cada vez que penso, que tento, que quero dizer-te qualquer coisa, não, não consigo... e, nestes dias, é esta música que surge recorrentemente sempre que isso acontece...

Sim, um bocadinho lamechas e tal, mas a mensagem passa assim mesmo...
Esta não é a original, mas é a minha versão preferida,
do Xavier Naidoo com a Yvonne Betz






Don't give up
You still have us

Força, Menino!
Gosto muito de ti!

25 de março de 2010

Curiosamente...

... nas escadas de sempre,
desapareceram as duas sombras de sempre.
Ninguém sabe muito bem onde foram parar...

Em vez delas, encontramos lá agora apenas uma sombra,
diferente das outras duas e no entanto familiar...