Para chegar ao centro, atravesso sempre o pequeno jardim.
Não preciso de o fazer.
Poderia contorná-lo pela calçada junto à avenida e chegaria lá provavelmente até mais depressa. Mas prefiro passar pelo jardim. Insignificante para a maioria, visto como um mero adorno de um espaço que ficaria demasiado vazio de outra forma.
Para mim, porém, é mais como um reduto de fuga.
Meia dúzia de árvores já centenárias, alguns metros de relva, tímidos caminhos desenhados a cascalho branco e salpicados de canteiros de flores, três ou quatro bancos de jardim em torno do canteiro principal, normalmente animado por pequenos festins de pombas que por ali vão descobrindo alimento.
Apesar do ritmo acelerado da cidade, quando entro na sombra daquelas árvores, o meu corpo obriga-se a abrandar, como se respeitasse a solenidade deste pequeno oásis à beira da extinção.
Num dos bancos de jardim, avisto-os, ainda que de costas. O tom cinza dos cabelos denuncia a sua idade. A cabeça dela encostada ao ombro dele denuncia a sua cumplicidade.
Vou-me aproximando discretamente ao longo do carreiro de cascalho.
Alheios aos meus movimentos, assim como de outros que vão passando mais apressados e alheados do que eu, lá continuam.
Começo a perceber ligeiros acenos de cabeça e, aos poucos, vou começando a discernir sorrisos sussurrados que vão presenteando um ao outro. A sua presença é tão perfeita e harmonizada que nem as pombas se incomodam e, confiantes, vão passando bem perto dos seus pés.
O meu caminho passa à frente do seu banco de jardim. Passo ao mesmo ritmo que já trazia e avisto-os pelo canto do olho. Receio sequer incomodar a harmonia daquela cena de tela com algum movimento brusco. Receio infundado, porém. Ninguém os poderia incomodar.
Ninguém poderia incomodar a beleza e a serenidade com que estes dois seres lindos atravessaram a sua vida, de mãos dadas e cúmplices.
Ninguém poderia questionar todas as lições que aprenderam lado a lado e um com o outro.
Ninguém poderia duvidar que este amor, sim, é inquebrável e irrefutável.
São aqueles sorrisos, aqueles segredos quase desnecessários, aquela forma como permanecem imunes aos sons e movimentos do que se vai passando à sua volta que desvendam essa vida maravilhosa que os dois - um só, afinal - têm para contar.
Envelhecer assim não é senão rejuvenescer, crescer, ser sempre mais e maior.
Sigo o meu caminho.
Já ao fundo do pequeno jardim, olho para trás. Nada mudou à minha passagem! Fico feliz por não os ter perturbado.
Continuo a passar naquele mesmo sítio tantas vezes, tantos anos depois... e, de cada vez que o faço, ainda abrando o passo, fecho discretamente os olhos e revejo aquele quadro de amor ancião que ficou gravado ali, que ficou guardado na minha memória. E tantas vezes desejo poder ver pintada com estas mesmas tintas a imagem da minha própria velhice...

Para o desafio de Fevereiro,
subordinado ao tema Velhice
Foto minha






